A segunda passagem de Getúlio Vargas pelo governo brasileiro se deu num momento de transição da história recente do país. Tratava-se do período após a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil experimentou um breve momento de democracia entre duas ditaduras: o Estado Novo, com o próprio Getúlio Vargas e que terminou em 1945, e a Ditadura Militar, iniciada em 1964.
O suposto suicídio de Getúlio foi um evento de grande importância para a população na época, tanto pelo governo de Vargas, com realizações importantes como a criação da Petrobrás, quanto pelo de seu sucessor, o progressista Juscelino Kubitscheck, que mudou a cara do Brasil com a abertura da economia para o capital e as indústrias multinacionais e também com a construção de Brasília. Ainda, uma outra consequência da queda de Getúlio foi o governo que sucedeu ao de JK, Jânio Quadros. Ele, assim como seu vice João Goulart, que acabou assumindo o governo após a renúncia do primeiro, foram acusados de serem comunistas, fato que resultou no golpe militar em 1964.
Possivelmente o artefato mais simbólico deste período da história política brasileira seja a chamada "Carta testamento" de Getúlio Vargas. Cercada de polêmicas, pois além de existirem duas versões, uma manuscrita e outra datilografada, sequer o suicídio é considerado um fato incontestável, ela marcou o fim dos quase 20 anos de governo do chamado "Pai dos Pobres" e deixou uma das frases mais emblemáticas da história do Brasil: "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."
Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
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